Técnica do leite irrigado: entenda!

02/08/14   JY  Geotecnologias

 

LEITE IRRIGADO 

Debaixo de pivôs centrais, o pastejo rotacionado permite aos pecuaristas produzir mais leite na seca que na época das chuvas na região do Semiárido cearense. Tomemos como exemplo, comparando com a Paraíba!

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 Fotos Jarbas de Oliveira, de Maranguape (CE)
 

Pasto sob pivôs de irrigação dos perímetros do Dnocs no Sertão do Ceará

A técnica de pastejo rotacionado irrigado, introduzida no Ceará em meados da década passada, está revolucionando a pecuária de leite no Estado. Com esse sistema, a produção já é maior no período de estiagem que na época das chuvas, invertendo uma lógica secular na região. A irrigação dos pastos também trouxe a certeza da produção independentemente de o ano ter boas chuvas ou não.

Essa segurança deu ânimo para que os pecuaristas investissem na atividade, resultando em aumento da oferta de leite. Também atraiu para o Estado fornecedores de insumos, empresas de genética bovina, laticínios e mais produtores de leite. Todos miram os benefícios que o Estado pode oferecer em um futuro próximo com seus mais de 200.000 hectares de áreas irrigáveis, boa parte delas com toda infraestrutura instalada, mas parcialmente ociosa, como é o caso dos perímetros do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).

Tudo começou em 2000, quando o governo cearense resolveu apostar no Projeto Pasto Verde, que consistia em repassar para pequenos produtores as vantagens do pastejo rotacionado irrigado. Cinco anos depois, mais de 1.400 pecuaristas já haviam adotado o sistema. “Quando vinha uma seca, o pecuarista deixava de produzir o leite e ainda precisava comprar alimento para o rebanho durante meses. O Pasto Verde mudou essa realidade”, observa o zootecnista e consultor Raimundo Reis, que esteve à frente da implantação do projeto no Estado. “Hoje, a gente trabalha e tem lucro o ano todo”, diz o produtor Carlos Augusto Paiva, da Fazenda Flôr da Serra, de Limoeiro do Norte, a 194 quilômetros de Fortaleza.

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Luiz Girão, proprietário da Fazenda Flor da Serra, em Limoeiro do Norte (CE)

O pastejo rotacionado irrigado é adotado em mais de 5.000 hectares e responde por cerca de 25% da oferta de leite no Ceará. O mais importante não é o volume, mas sim a segurança de que o leite está disponível o ano inteiro, faça chuva ou sol. Essa oferta segura – e com potencial de expansão – é que permite aos laticínios planejar a médio e longo prazos. A Danone, por exemplo, investiu no ano passado R$ 60 milhões para reativar uma fábrica em Maracanaú, a 20 quilômetros da capital cearense, a partir da qual trabalha para abastecer os mercados do Norte e Nordeste. O laticínio Sabor e Vida, em Maranguape, a 50 quilômetros de Fortaleza, também está apostando no crescimento do setor. “Concluímos um investimento que triplicou nossa capacidade de produção, que passou para 20.000 litros ao dia”, diz Osvaldo Vieira, da área comercial da empresa.

Além dos laticínios, o potencial da região tem despertado o interesse de outros segmentos. Em 2009, a Tortuga, empresa de suplementos para alimentação animal, investiu R$ 90 milhões para instalar uma unidade no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, a 60 quilômetros da capital. A fábrica foi concebida para suprir o mercado nacional e também exportar, mas é a demanda regional que tem ocupado mais a linha de produção. É difícil encontrar uma fazenda que utilize o pastejo rotacionado e não trabalhe com inseminação artificial. Em Quixadá, a 160 quilômetros de Fortaleza, em pleno Sertão Central, o técnico agrícola Francisco Rodrigues fala com orgulho do plantel de vacas da Fazenda São João, formado com sêmen importado de grandes touros da raça holandesa. “Temos vacas aqui com produção acima de 60 litros ao dia.” Em 8 hectares irrigados, a fazenda mantém 125 animais em lactação em sistema de semiconfinamento. Durante o dia, quando o tempo é mais quente, os animais comem no cocho um volumoso que inclui cevada. À noite, são soltos nos piquetes com capim irrigado. A média de produção por animal chega a 24 litros de leite por dia e o custo total por litro é de R$ 0,66, repassado a R$ 0,79 para a indústria.

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Gado recebe ração no cocho em fazenda do interior do Ceará

Os pecuaristas inseridos nesse sistema vivem uma espécie de lua de mel com os laticínios, pois, além de um preço razoável – que costuma incluir bônus por qualidade –, contam com assistência técnica. A Danone, por exemplo, relata casos em que produtores que seguiram as recomendações dos especialistas conseguiram aumento real de até 273% na renda por ganhos em qualidade e produtividade. Em termos de assistência, no entanto, é difícil encontrar algo parecido com o que faz o laticínio CBL-Betânia, o segundo maior do Ceará. Em sua unidade de Limoeiro do Norte, a empresa fornece aos parceiros terra, gado, pivô central para irrigação, insumos, orientação técnica e ainda garante a compra do leite a R$ 0,80. Entrando somente com a “administração” do negócio, oito parceiros têm lucro líquido de até 30%, o que pode proporcionar para alguns deles até R$ 45 mil por mês.

“Se a pessoa se dedicar, o leite hoje dá uma renda muito boa”, observa Carlos Maia, do Sítio Fazenda, em Limoeiro do Norte, no qual está produzindo 450 litros diários com suas 27 vacas criadas em sistema semi-intensivo (pastejo rotacionado mais suplementação no cocho). Segundo ele, na época da estiagem, a produção de leite aumenta em 30%. “Meu capim irrigado é mais bonito no verão que na época das chuvas. Tendo água à disposição, o Sertão é o melhor lugar para produzir leite, porque podemos controlar o clima”, diz Maia.

Em 2010, a Agência de Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará (Adece) resolveu traduzir em números o que muitos pecuaristas de áreas irrigadas já sabiam: é possível produzir leite com lucro no Ceará. Mais que isso: seria possível produzir com indicadores econômicos iguais ou superiores às mais destacadas bacias leiteiras do mundo. “Hoje, produzimos leite a US$ 0,30 por litro, enquanto o custo médio nos Estados Unidos é de US$ 0,38. Quando o real estava menos valorizado, chegamos a produzir por US$ 0,22, que é o preço conseguido pela Nova Zelândia, referência mundial em produção leiteira”, diz o consultor Raimundo Reis, um dos responsáveis pelo estudo Projeto Leite Ceará, elaborado pela Adece.

O estudo lançou ainda um novo olhar para áreas dos perímetros irrigados do Dnocs – que só no Ceará chegam a 40.000 hectares. “São áreas com oferta de água, energia, comunicação, estradas, bons solos e preço baixo – média de R$ 2,5 mil por hectare – e que não estão plenamente ocupadas”, conta Francisco Zuza, presidente da Adece.

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Francisco Rodrigues, técnico agrícola, tem orgulho do plantel da Fazenda São João

O estudo da Adece, que considerou todas as variáveis econômicas para a implantação de projetos em módulos de 8 a 210 hectares, chegou a resultados surpreendentes – é possível obter até mais lucro com gado leiteiro nas áreas irrigadas que com a produção de frutas – e sem o perigo das oscilações de demanda e preço do mercado internacional. De acordo com o estudo, a implantação de um módulo de 8 hectares – que comporta a criação de até 100 vacas e requer investimento total de R$ 279 mil – proporciona uma receita de R$ 51,9 mil por ano, com lucro de 30%. O estudo aponta ainda que, quanto maior o módulo, mais vantajoso é o investimento. Para uma área de 210 hectares, o lucro estimado é de 40% e o investimento necessário, de R$ 6,1 milhões, se paga em seis anos e dois meses.

Pecuaristas tradicionais de Minas Gerais e São Paulo já compraram lotes no Perímetro Irrigado de Tabuleiro de Russas, do Dnocs, como o paulista José Junqueira Júnior. Junto com outros pecuaristas de Ribeirão Preto (SP), ele formou a empresa Vale do Castanhão, que está investindo mais de R$ 2 milhões em 50 hectares. O plano da empresa é utilizar 50 hectares do perímetro irrigado para criar 350 vacas em lactação, com a meta de obter diariamente mais de 100 litros de leite por hectare. “Isso é possível porque a região tem 300 dias de sol por ano e água abundante para irrigação, o que resulta num ciclo muito reduzido de crescimento da pastagem. Na região, o capim irrigado se recompõe entre 18 e 21 dias, o que coloca o Semiárido cearense entre os mais produtivos do mundo, sem o incômodo de doenças e problemas típicos de regiões de muita chuva, clima muito frio ou geadas,” diz.

O nome da empresa de Junqueira Júnior é uma referência ao Açude Castanhão, um reservatório gigantesco que é o coração de um arrojado sistema de transposição de águas e que garante abastecimento à população, indústrias e grandes projetos de irrigação da região. Concluído em 2003, o Castanhão tem potencial para acumular até 6,7 milhões de metros cúbicos de água e responde sozinho por mais de 30% dos 18 bilhões de metros cúbicos de capacidade total de armazenamento do Ceará.

“Em relação à oferta de água, estamos à frente dos demais Estados da região”, comenta Henrique Prata, presidente da Associação dos Produtores de Leite do Ceará, para quem a gestão correta dos recursos é a chave para viabilizar a produção no Semiárido. “Temos visto experiências bem-sucedidas de produção de leite até onde a sobrevivência humana é difícil. O importante é dispor de conhecimento, tecnologia e gestão nas propriedades”, diz. O mercado interno – que está em franco crescimento na Região Nordeste – impulsiona o negócio. O Ceará importa um terço de tudo que sua população consome. E a utilização de 5.000 hectares para a pecuária de leite nos perímetros irrigados poderia elevar em pelo menos 300.000 litros a oferta do produto.

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Laticínio Sabor e Vida, em Maranguape (CE), que produz leite e queijos

O nome do sistema que está permitindo aos pecuaristas cearenses produzir leite o ano inteiro é pastejo rotacionado irrigado. A técnica não é nova e consiste em práticas muito simples: fazer com que a cada dia os animais se alimentem de volumoso (capim) em uma área diferente, oferecendo assim pasto sempre novo e nutritivo o ano inteiro. Esse sistema representa muito para os pecuaristas do Sertão cearense. Para se ter ideia, com o pasto natural da Caatinga são necessários cerca de 20 hectares para manter apenas uma vaca de leite. Com o pastejo rotacionado irrigado, pode-se criar até 12 animais em lactação em cada hectare.

“O pastejo irrigado assegura capim verde o ano inteiro”, diz o consultor Raimundo Reis. E o capim cresce com vontade no Ceará, por conta da quantidade de sol disponível por ano (300 dias) e da temperatura média constante elevada (30 ºC). Sem muito esforço, quem adota o pastejo rotacionado irrigado está obtendo mais de 100 litros de leite diários por hectare – e a custos bem razoáveis. Na Flôr da Serra, alimentar uma vaca com capim irrigado, utilizando pivô central, custa R$ 1 por dia. O custo por litro é de R$ 0,40. O proprietário da fazenda, Luiz Girão, é um nome reverenciado no setor pelas suas investidas visionárias e corajosas. Foi dele, há alguns anos, a iniciativa de fazer “leasing” de vaca: um empréstimo para ser pago com leite, no qual quem recebia o animal tinha a possibilidade de comprá-lo por um valor pequeno ao final de três anos.

Girão, que também é proprietário do laticínio Betânia, chegou a alugar 4.700 vacas. Foi ele também que, de maneira pioneira, começou a utilizar os perímetros irrigados do Dnocs para produzir com pivô central milho e leite. Hoje, com seus 1.300 hectares, a Flôr da Serra desenvolve outra experiência que desperta atenção: toda a estrutura da fazenda foi disponibilizada a “parceiros”, que têm como única obrigação vender ao laticínio o leite produzido. E não é uma estrutura qualquer. São 200 hectares irrigados com quatro pivôs, 3 mil animais (1.300 em lactação), currais, ordenhas mecânicas, insumos, inseminação artificial, além da garantia de aquisição do leite a R$ 0,80 o litro.

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 Ritmo chinês
Nordeste multiplica a produção e o consumo de lácteos com investimentos em genética e tecnologia
texto sebastião nascimento

No leite, o Nordeste cresce a um ritmo chinês.” A frase, que pode parecer exagerada, é de Raimundo Reis, diretor da Leite e Negócios, empresa de consultoria do Ceará que lança há duas temporadas um anuário e exibe dados completos sobre produção e consumo em toda a região. O Nordeste imprime maior velocidade em relação a outros Estados brasileiros nos quesitos consumo per capita, produção total de leite, aumento do rebanho e apuro na qualidade das vacas. No rastro da expansão – a população nordestina é de 50 milhões de pessoas e muitas estão sendo incorporadas agora ao mercado –, grandes indústrias como a Nestlé, a BR Foods, a Danone e a Bom Gosto inauguraram filiais no Ceará e em Pernambuco. Lá se instalaram também empresas de inseminação artificial e redes de varejo, informa Reis.

A locomotiva é Pernambuco. Segundo o analista, em 2004, o Estado captava 397,5 milhões de litros ao ano. Fechou 2010 com 877,4 milhões de litros. “Em seis anos apenas, houve um incremento de 480 milhões de litros”, ressalta Reis. Segundo ele, a cada ano, o volume coletado em Pernambuco sobe 20%. Na Bahia e no Ceará, entre outros, a expansão segue sem pausa.

Ainda baixa, a demanda per capita de leite líquido e seus derivados como iogurte é de 27,47 quilos no Nordeste – são 47,6 quilos na média nacional. “Apesar de reprimido, o consumo dobrou na última década e reflete a melhora no bolso da população nordestina”, diz Reis, informando também que iogurte e outros industrializados são os preferidos nas gôndolas.

Segundo números da Leite Brasil, a produção leiteira nordestina dobrou desde a virada do século, de 2 bilhões de litros para 4 bilhões de litros. Para Reis, além da melhoria do poder aquisitivo da população, contribuíram para o avanço do leite os programas oficiais de fomento à produção, investimentos no padrão genético do gado e a maior capacidade de processamento da matéria-prima.

Já em praças tradicionais, como a de São Paulo, espremida pela concorrência da cana e pelo alto preço das terras, a produção de leite engatou marcha a ré. Nos últimos anos, liquidações barulhentas de rebanho fecharam a porteira de fazendas que exploravam secularmente a atividade. Especialistas explicavam, na ocasião, que boa parte das vacas férteis ofertadas era adquirida por fazendeiros do Nordeste para aprimorar o plantel pouco produtivo do Sertão. Eles anteviam que a pecuária brasileira estava mudando de mão e de região. “Acertaram”, confirma Raimundo Reis, registrando ainda que, analisados pontos específicos, como produção e demanda, a pecuária de leite no Nordeste mostra similaridade com o crescimento da economia da China.

Em 2011, por sinal, a Embrapa Gado de Leite levou ao Nordeste, pela primeira vez, o Congresso Internacional do Leite, realizado há dez anos. Segundo Duarte Vilela, diretor-geral da Embrapa, o evento foi promovido em reconhecimento à importância crescente da cadeia produtiva do leite para a economia da região. “O Nordeste produz próximo de 4 bilhões de litros de leite por ano, representando 13% da produção nacional.”

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Fonte: Estado do Ceará

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Sobre Jana Yres

Graduação em Engenharia Agrícola-UFCG , Atuação profissional: AESA (Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba). Áreas de atuação: Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto. Aplicação de aulas de SIG e PDI , atuação nas áreas de agrometeorologia, irrigação e drenagem (zoneamentos agrícolas), trabalhos em campo com dimensionamento de áreas (Agrimensura) e Mapeamentos aplicados a projetos rurais, florestais e recursos hídricos. Gestão Ambiental - analise e consultoria. É professora de Língua Espanhola. Participa de um projeto social da UFCG, o cursinho pré-vestibular solidário.

Publicado em 03/08/2014, em Agricultura e Engenharia. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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